
Mário Laginha é pianista e compositor. Nasceu em Lisboa, em 1960. Às vezes é feliz.
Mário João Laginha dos Santos nasceu em Lisboa, no dia
25 de Abril de 1960.
Da infância guarda bem a imagem do 1º piano vertical que recebeu
aos 5 anos. Nessa altura começou a ter aulas particulares, nas
quais o repertório clássico se misturava com valsas e modinhas
pedidas pelo avô. Sonhava em ser pianista. Mas o sonho tinha momentos
menos agradáveis como os recitais de sábado à tarde,
exigidos pela escola, perante um plateia de familiares, amigos e professores:
“Ó Mário João, vai lá tocar um bocadinho!”
O problema é que, para além de pianista, o rapaz também
não desdenhava vir a ser bombeiro ou médico...
Cansado de recitais e demonstrações de menino-prodígio, Mário, o rapaz, passou o piano para 2º plano e pediu ao pai uma guitarra. Surgia Mário João Santos, o guitarrista, autodidacta, futuro Paco de Lucia português!
Entre as cordas da guitarra e do piano havia ainda Mário Santos, o ginasta. Seis aparelhos, 4 horas de treino por dia. Se as Olimpíadas não quisessem nada com ele, havia sempre a hipótese de tirar o curso do ISEF (Instituto Superior de Educação Física) e ser professor de ginástica. Uma hipótese encarada com seriedade, não fosse o ginasta ter-se cruzado com Keith Jarrett na televisão.
O 1º clique que fez com que Mário, o adolescente, regressasse
ao piano chegou por intermédio dos Genesis.
Como? Os colegas descobriram um piano no ginásio da escola. Tentavam
tocar uma música daquela banda, mas não estava a correr
muito bem. Mário ofereceu-se para tentar e perante o espanto dos
colegas, que não suspeitavam que o amigo sabia tocar piano, a música
tomou a forma desejada. Choveram elogios. Click!
O 2º e definitivo clique é da responsabilidade de Keith
Jarrett. Um concerto na televisão fê-lo descobrir que
era mesmo aquilo que queria fazer, tocar assim, como aquele homem que
não conhecia, nem sabia porque o fascinava tanto. Tocar aquela
música, que descobriu, depois, ser o tal do jazz.
Foram ficando esquecidos os Black Sabath, Deep Purple, Jethro Tull, Yes,
Genesis, ouvidos então abertos para essa nova música, que
chegou, em disco, pelas mãos do irmão. Dedicou-se de corpo
e alma ao piano, 8 horas de estudo por dia, já sem tempo para a
ginástica desportiva.
Inscreveu-se na escola de jazz “Louisiana”, em Cascais, dirigida
por Luís Villas Boas. Quando Villas Boas o ouviu pela primeira
vez, estava a tocar um tema que tinha ouvido por Keith Jarrett. Disse-lhe:
“eh pá, você é engraçado! Isso o que
é? Vamos devagarinho... Você primeiro tem que estudar os
clássicos, o Bud Powell, o Bill Evans...”. E foi mesmo assim...
Estava decidido. A vida seria essa, a de tocar e escrever música, mesmo que algumas vozes fossem contra. Tentaram dissuadi-lo; ele respondeu inscrevendo-se primeiro na Academia de Amadores de Música e depois no Conservatório, onde teve como professores Carla Seixas e Jorge Moyano. Pretendia apenas adquirir alguns conhecimentos e melhorar a técnica, mas acabou por concluir o curso, com a classificação máxima, aos 25 anos. Muito tarde para uma carreira de pianista clássico, muito a tempo para continuar o percurso no jazz. Curiosamente, assim que terminou o Conservatório, o primeiro convite que teve, foi para tocar um concerto de Schumann, com a Orquestra Sinfónica, algo que nunca tinha imaginado fazer.
O início não foi fácil. Para ganhar algum dinheiro,
Mário Laginha, o pianista, viu-se obrigado a tocar num hotel às
terças, quintas e sextas e a acompanhar músicos em estúdio.
O seu primeiro trabalho profissional foi no teatro, na peça “Baal”,
de Brecht, no Teatro da Trindade. Mais tarde, voltou a trabalhar nessa
área, acompanhando uma actriz brasileira, em canções
de Kurt Weil. Pelo caminho, umas incursões na Cinemateca para acompanhar
filmes mudos, ao vivo, experiência não muito satisfatória,
pois tinha que tocar muito tempo sem parar, nem sempre com os melhores
resultados.
O primeiro projecto “a sério”, no jazz, deu-se com
a sua integração no quinteto da cantora Maria João,
inicialmente intitulado Maria João & Friends. Essa formação
deu origem a dois discos: Quinteto Maria João (1983) e Cem Caminhos
(1985), constituídos por standards e alguns originais.
Paralelamente, Mário Laginha fundou o Sexteto
de Jazz de Lisboa, com Carlos Martins, Tomás
Pimentel, Edgar Caramelo e
os irmãos Pedro e Mário
Barreiros. Com estes últimos actuava, com alguma regularidade,
em trio. Com o Sexteto ficou ainda para a memória, o disco “Ao Encontro”(1988), existente apenas em formato LP.
Durante esses anos, Laginha foi-se libertando da interpretação de standards do jazz, explorando o seu próprio universo, criando as suas próprias composições. Um dos desafios surgiu em 1987, quando com o apoio da Fundação Gulbenkian e no âmbito do Festival Jazz em Agosto, estreou o Decateto de Mário Laginha, para o qual assinou todas as composições e arranjos.
Conjugando sempre o jazz com o clássico (terminara recentemente
o curso de piano do Conservatório), Mário Laginha continuou
a apresentar-se esporadicamente em festivais de Música Clássica.
Aconteceu nessa altura a formação do duo com Pedro
Burmester, um daqueles amigos difíceis de encontrar. Juntos
realizaram espectáculos por todo o país, tendo sido gravado
o concerto de Dezembro de 1993, no Centro Cultural de Belém, que
deu origem ao disco “Duetos”. O duo mantém-se até
hoje, embora sejam mais raras as suas apresentações.
Em 1991, juntou-se ao grupo Cal Viva, do qual faziam parte Carlos Bica, José Peixoto e José Salgueiro, reencontrando-se novamente com Maria João, também convidada do grupo. Gravaram “Sol” e fizeram tournées intensas, mas divertidas, por todo o país e no estrangeiro.
Entre 1990 e 1992 Mário Laginha manteve ainda um Quarteto e um Quinteto, com os quais actuou regularmente pelo país.
Já em 1993 fundou com o pianista João Paulo Esteves da Silva, o grupo Almas & Danças, com base em gostos comuns e em algumas composições conjuntas.
“Hoje”, o primeiro disco assinado com o seu nome, é editado em 1994, com a participação de Julian Argüelles (saxofone), Sérgio Pelágio (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria). Dos 7 temas do disco, 6 são da sua autoria e 1 assinado por Argüelles.
O disco Danças, lançado em 1994, já pela Verve, marcou o início de uma nova fase e de um novo duo, que persiste até hoje, com a cantora Maria João. Passados vários anos da primeira colaboração, com uma zanga pelo meio, os dois músicos empenharam-se num disco diferente, só com piano e voz. Seguiram-se-lhe, até 2005, mais 6 discos em conjunto: Fábula, Cor, Lobos, Raposas e Coiotes, Chorinho Feliz, Mumadji (ao vivo), Undercovers e Tralha. A cumplicidade entre Maria João e Mário Laginha tem feito deste encontro um dos mais felizes da música portuguesa, bem comprovado na originalidade e consistência de um duo com mais de dez anos. Para além dos trabalhos discográficos, João e Laginha têm sido convidados a integrar diversos projectos, com destaque para: o espectáculo “Raízes Rurais, Paixões Urbanas”, encenado por Ricardo Pais, em 1998, onde o fado e a música folclórica e tradicional se cruzavam com a música do duo; a colaboração com a companhia do coreógrafo Paulo Ribeiro, onde temas dos discos Fábula e Cor foram transportados para a linguagem da dança, num espectáculo estreado no P.O.N.T.I, em 1999 e intitulado “Ao Vivo”; a participação na curta-metragem “Canção Distante”, de Pedro Serrazina, no âmbito do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura; o espectáculo “O Movimento do Som. O Som do Movimento”, em 2002, projecto de fusão entre a música e as Artes do Budô (artes marciais japonesas), realizado em conjunto com o Tenchi International, local onde a cantora pratica Aikido.
Em Agosto de 1999, num concerto integrado no Festival “Jazz em Agosto”, Mário Laginha apresentou-se em duo com o pianista Bernardo Sassetti . A fusão dos dois estilos conquistou de imediato o público e, essa primeira experiência resultou em muitas mais. Desde então, têm realizado concertos um pouco por todo o país, culminando com a gravação de um disco de originais (Mário Laginha e Bernardo Sassetti), editado em 2003, e de Grândolas (2004), disco integrado na comemoração dos 30 anos do 25 de Abril.
À parte dos seus projectos mais regulares, Mário Laginha é frequentemente convidado a participar, quer como pianista, quer como compositor, em importantes eventos culturais.
Gravou o seu primeiro trabalho a solo, CANÇÕES E FUGAS, em 2005, projecto que foi apresentado em estreia absoluta no grande auditório da Culturgest, e que tem lançamento previsto para Março de 2006.